Um comentário sobre paternidade

1984.05.15 - Vô Walmir, eu, pai e Vô Renato - Flamengo, Rio de JaneiroPrimeiro post do ano… Motivos houve muitos para que eu não tivesse ânimo de postar nesses tempos. A bem da verdade (confissão para meus três leitores) eu me peguei pensando se ainda tinha algo a compartilhar. Curiosamente, a resposta veio de uma conversa com a minha mãe na varanda de casa. Embalados pelo barulho da chuva e dois Romeu Y Julieta excepcionais, falávamos sobre vida, escolhas, erros e acertos. Passamos por casamentos, divórcios e, por fim, paternidade. E notamos, para a surpresa de ambos, como a minha visão sobre a paternidade mudou…

Quando recebi o telefonema do hospital me informando que meu pai morrera, a primeira coisa em que me veio à cabeça foi “entropia”. Não há segundas chances e o tempo só anda para frente. Nada a fazer, eu não teria um pai companheiro durante a adolescência. Entropia, não teria apoio dele nas horas difíceis. Entropia, não seria meu pai a ensinar com amor e gravidade sobre a vida. Ou a dirigir. Ou a jogar futebol. Ele simplesmente não foi assim. Entropia, o tempo só anda para frente.

Tínhamos uma relação, para dizer o mínimo, ruim. Meu avô materno (estou no colo dele na foto) foi, desde sempre (para minha sorte), a minha figura paterna. Quando ele morreu (há quase quinze anos), senti, simplesmente, que não tinha pai. Obviamente, a minha relação com a ideia da paternidade não era das melhores.

E, sem nem bem entender como ou por que, há algum tempo penso na paternidade. O grande estalo foi o nascimento da filha do meu melhor amigo de infância… Acompanhei e curti enormemente (ainda que do outro lado do mundo) a gravidez do meu “Koala Bear”. Notei-me, um tanto estupefato, pensando em como pode ser bom ser pai. Não para corrigir o pai que não tive (entropia), mas para ter o filho que não fui.

Pois bem. Não sei se algum dia eu serei pai. Mais ainda, se for pai, não tenho ideia de como será esse filho. Não sei se ele gostará de jazz ou se interessará por literatura. Se achará divertido saber citações de Shakespeare ou me achará um pedante por isso. Não sei se ele será um nerd simpático a discutir Jornada nas Estrelas comigo ou o atleta da turma. Não tenho nem ao menos certeza de que ele terá qualquer afinidade comigo.

A minha única certeza é que ele, que ainda não existe (e sei lá eu se e quando existirá), tem todas as possibilidades. Todas as que eu não tenho, constante que sou como a Estrela Polar.

Em paz com a morte do meu pai, finalmente me reconciliei com a paternidade.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s