Seguindo os passos mexicanos de Roberto Bolaño – Comentários sobre O Espírito da Ficção Científica

14170_ggEl burro

A veces sueño que Mario Santiago

Viene a buscarme con su moto negra.

Y dejamos atrás la ciudad y a medida

Que las luces van desapareciendo

Mario Santiago me dice que se trata

De una moto robada, la última moto

Robada para viajar por las pobres tierras

Del norte, en dirección a Texas,

Persiguiendo un sueño innombrable,

Inclasificable, el sueño de nuestra juventud,

Es decir el sueño más valiente de todos

Nuestros sueños. Y de tal manera

Cómo negarme a montar la veloz moto negra

Del norte y salir rajados por aquéllos caminos

Que antaño recorrieran los santos de México,

Los poetas mendicantes de México,

Las sanguijuelas taciturnas de Tepito

O la colonia Guerrero, todos en la misma senda,

Donde se confunden y mezclan los tiempos:

Verbales y físicos, el ayer y la afasia.

 

Na vida e na obra de Roberto Bolaño, o Chile é o país de sua infância, o México é o país de sua adolescência e a Espanha o da vida adulta. Dado biográfico que pode parecer irrelevante, sua influência é inquestionável em “O Espírito da Ficção Científica”, obra escrita nos anos oitenta e publicada postumamente no Chile no início de 2017.

Durante seu tempo no México que Bolaño mais foi poeta. Lá frequentou oficinas literárias, publicou suas poesias num sem número de pequenas revistas, participou da criação do Infrarrealismo, escreveu, leu e ouviu muita poesia (nem sempre boa). No México conheceu boa parte dos “poetas perdidos” que povoariam a sua obra e viveu muito da vida boêmia e desgarrada que marca boa parte de seus personagens, eternamente inadequados e deslocados.

São exatamente essas experiências mais epidérmicas do autor que formam o cerne do romance. Remo e Jan, dois amigos que vivem numa água furtada no Centro Histórico do DF e funcionam como fios condutores do romance, representam muito da identidade do próprio autor refletindo a falta de direção e de propósito dos tempos vividos no México. Remo (alter ego que voltaria mais velho e cínico em A Pista de Gelo) frequenta as oficinas de poesia, conhece uma série de poetas eternamente inéditos, bebe, usa drogas, vive todas as experiências de um aspirante a poeta na América Latina (e especificamente no México) dos anos setenta. Sofre com a falta de dinheiro tão presente quanto a poesia. São tempos típicos da juventude, incrivelmente simples e igualmente definidores, vividos intensamente, sem um olhar claro sobre o futuro.

Bolaño, numa escolha que reputo bastante interessante, opta por situar a maior parte da ação de Remo na madrugada, dando um tom que mistura o etílico e o onírico. Remo e Jan vivem e se deslocam em limiares. O limiar do dia, da pobreza, do fracasso. Será, aliás, tema recorrente da obra do autor, burilado em seus textos mais maduros.

Sendo um texto sobre a juventude e os tempos no México, é natural que surjam diversos personagens que funcionam como experimentos dos alter egos que vão compor Os Detetives Selvagens. José Arco, alter ego de Mario Santiago surge bem menos misterioso e cínico do que Ulisses Lima (não por acaso escolhi o início do poema El Burro para abrir o texto) com sua moto roubada, sua presença marcante e sua profunda influência sobre Remo/Bolaño. Para quem gosta de traçar paralelos, a investigação sobre as oficinas de poesia a que se dedicam Remo e José Arco pode muito bem ser vista como um antecessor da busca pela poeta Cesárea Tinajero em Os Detetives.

Aliás, nota interessante, a juventude, uma obsessão temática do autor, nunca é retratada com cores simpáticas ou saudosas e sim como um misto de pobreza, inadequação e infelicidade. Mesmo que não estejam ainda embrutecidos pela vida, os personagens não são felizes como se pode esperar de um bando de jovens poetas. Há uma constante sensação de tristeza que é claro reflexo da sensação de inadequação do autor.

Sobre o texto em si, observa-se no romance um Bolaño ainda migrando da poesia para a prosa. Achei esse o seu texto mais inadvertidamente poético. Não é uma prosa com objetivos poéticos como o (maduro) Amuleto, que assim o é propositadamente, mas sim como uma transição entre o Bolaño poeta e o Bolaño romancista.

Pois bem. O veredicto. Não se trata de um romance perfeito, nem tampouco de um produto acabado. Para quem conhece o autor (em especial para os que leram Os Detetives Selvagens), fica claro que Bolaño procura uma voz para dar aos personagens que tanta influência tiveram em sua vida. Acho que o livro funciona muito mais como um roteiro para decifrar os escritos posteriores do que especificamente como um romance. Altamente indicado para os fãs (notadamente os de Os Detetives Selvagens), pode não agradar a um leitor casual.

Por fim, uma provocação… Se a “Bolañomania” explodiu mesmo após a publicação do póstumo (e monumental) 2666, a publicação de mais um texto póstumo faz mais uma vez surgir aquela eterna dúvida se tudo que se esconde do Baú do Roberto merece ver a luz do dia.


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