A barbárie nossa de cada dia

Inglourious Basterds
Há algo de muito errado quando Tarantino se transforma em exemplo de punição. 

Há pouco mais de três anos escrevi (em um blog que mantinha) um texto sobre um bandido que fora espancado e preso a um poste pelo pescoço aqui no Rio. Por conta do bandido que teve a testa tatuada por uma de suas vítimas, resolvi reler aquele texto. É muito sintomático como praticamente tudo que escrevi se mantém atual.

Suprimida a parte que trata especificamente do evento, pouco mudei do texto original, o que, sim, me deixa bastante desgostoso. As reflexões continuam, no fim, as mesmas….

Começo, como antes, com uma necessária digressão.

Sobre bandidos, pessoalmente não acredito que sejam vítimas da sociedade. Acredito piamente que ser bandido é uma escolha pessoal e, vejo, naqueles que falam da vitimização, um enorme preconceito contra os pobres que seriam, pela sua condição, incapazes de fugir do destino a eles atribuído de bandidagem, precisando das ONGs, partidos e afins para “salvá-los”. Os prosélitos do vitimismo (encastelados em certa esquerda) acabam desviando o debate daquilo que, entendo, realmente importa.

Por outro lado, não posso apoiar aqueles que defendem que “bandido bom é bandido morto” (ou com a testa tatuada). Não acredito que se deva conceder ao Estado (ou a quem quer que seja) o direito de tirar uma vida, por pior e mais degrada que ela seja. Se a vida é um bem jurídico a ser protegido, não posso aceitar que isso mereça flexibilização, já que uma vida não é essencialmente melhor do que a outra. Entender assim é, para mim, classificar as pessoas em mais ou menos dignas, o que leva, inevitavelmente, a criação dos cidadãos de segunda classe. Ah, sim… Sei o que é ser vítima de uma violência. Já sofri três assaltos e em todos eles tive uma arma apontada para mim. É claro que o meu sentimento foi de profundo ódio contra aquelas pessoas. Adiantando parte da conclusão, é para isso que serve o Direito: para que os sentimentos pessoais não interfiram no julgamento do criminoso, evitando que retornemos ao estado de barbárie.

Para mim, bandido bom é bandido preso pela polícia e condenado pela Justiça após o devido processo legal, com acesso ao contraditório e à ampla defesa. É o bandido que, se condenado será enviado a uma instituição prisional onde, segregado da sociedade (se necessário até o fim de sua vida natural), sua integridade física será respeitada e garantida pelo Estado.

Dito isso, volto ao ponto principal e que, muitas vezes, fica de fora do debate. Por que acontecem fatos como o da semana passada?

O grande drama que vivemos é a sensação que permeia a sociedade da mais completa falência do Estado, da incapacidade do mesmo cumprir a sua parte no contrato social. O cidadão se sente completamente só, largado em uma terra de impunidades que ignora os menores crimes e absolve os mais Supremos. Temos uma polícia ineficiente (basta olhar os índices de solução de inquéritos), uma Justiça morosa e, muitas vezes, injusta e uma legislação criminal que, apesar de criar mais crimes e aumentar penas a toda reforma, não consegue atender aos anseios mais básicos da população nem manter presos os criminosos.

O efeito claro é o puro e simples desespero. Quando o cidadão toma a justiça nas próprias mãos, convertendo-se em polícia, juiz e executor, o recado que está dando é: “eu não acredito mais nas instituições. E se elas não cumprem a sua parte do trato, no caso, me manter seguro de criminosos, então vou tomar de volta o exercício da força cujo monopólio transferi para o Estado”. O resultado são os marginais amarrados no poste, as execuções em praça pública, os grupos armados, as tatuagens em testas de bandidos.

Enquanto isso, os dois extremos ideológicos se batem entre o “coitadismo” e o “mata e arrebenta”, num balé macabro que insufla ânimos e foge covardemente do debate racional sobre o problema.

Isso me incomoda profundamente porque cenários de desesperança e descrédito das instituições são terreno fértil para líderes carismáticos e antidemocráticos como hoje há nos polos das ideologias vigentes. E, como bem disse o Bertolucci em uma entrevista à finada Bravo: “O fascismo sempre começa caçando os tarados”.

Tempos sombrios…


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