Porque hoje é Sábado, Gregório de Matos

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Triste Brasilia, ó quão dessemelhante

Um dos consensos em tempos de redes sociais é que o Brasil é o “país dos memes”. A capacidade nacional de rir da própria desgraça é inegável e a sátira é quase um esporte nacional. Considerando-se nossa história, episódios há mais que suficientes para encher páginas e páginas de sátiras.

Pensando nisso, resolvi voltar ao nosso primeiro satírico, o baiano Gregório de Matos e Guerra, poeta nascido em 1633 na cidade de Salvador, então capital da colônia. Gregório nasceu, cresceu e morreu em um Brasil corrupto, pobre e racista, em que uma elite encastelada no poder enriquecia por conta de contratos com o governo colonial. Sua poesia, publicada de forma dispersa, vai do sublime ao grotesco com a mesma qualidade, num quadro bastante interessante da vida colonial (não à toa, a coletânea de sua obra organizada por James Amado se chama “Crônicas do Viver Baiano Seiscentista”, nome mais do que justo dada à natureza de cronista do poeta).

Ainda que esse Brasil de Gregório seja tão distante da realidade nacional quase quatrocentos anos depois, a sua poesia manteve a força e, se vez ou outra precisamos ir ao dicionário para entender uma ou outra palavra, o (nosso) sentimento está completo ali. Para hoje, escolhi um dos poemas de que mais gosto. A técnica é excepcional e o tema, por sua vez, tem toda a ferocidade da crítica dos melhores poemas satíricos.

Porque hoje é Sábado, Gregório.

Torna a definir o poeta os maos modos de obrar na governança da Bahia, principalmente naquela universal fome, que padecia a cidade.

Gregório de Matos Guerra

1.

Que falta nesta cidade                          Verdade,

Que mais por sua desonra                    Honra,

Falta mais que se lhe ponha                 Vergonha.

                        O demo a viver se exponha,

                        por mais que a fama a exalta,

                        numa cidade, onde falta

                        Verdade, Honra, Vergonha.

2.

Quem a pôs neste socrócio?                Negócio

Quem causa tal perdição?                    Ambição

E o maior desta loucura:                       Usura.

                        Notável desaventura

                        de um povo néscio, e sandeu,

                        que não sabe, que o perdeu

                        Negócio, Ambição, Usura.

(…)

5.

E que justiça a resguarda?                    Bastarda,

É grátis distribuída?                              Vendida,

Quem tem, que a todos assusta?          Injusta.

                        Valha-nos Deus, o que custa,

                        o que El-Rei nos dá de graça,

                        que anda a justiça na praça

                        Bastarda, Vendida, Injusta.

(…)

9.

A Câmara não acode                              Não pode.

Pois não tem todo poder?                     Não quer.

É, que o governo a convence?              Não vence.

                        Quem haverá, que tal pense,

                        que uma Câmara tão nobre

                        por ver-se mísera e pobre

                       Não pode, não quer, não vence


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