Porque hoje é Sábado – Manuel Bandeira

2017-01-11 17.23.34.jpgO Porque hoje é Sábado é, muitas vezes, um espelho do meu humor. Não à toa, houve PQHES em homenagem ao meu avô, PQHES com Allan Poe. Este Porque hoje é Sábado não escapará à regra.

Na última semana fiz um “bate volta” a Recife por motivos de trabalho. Na próxima semana, passarei, novamente, alguns dias na cidade. Não me tornei (ainda?) um fã da cidade, mas ela se torna, cada vez mais, uma ambiente familiar.

Por conta disso, a decisão foi de postar um poeta nascido no Recife. Claro que não pensei em nenhum outro poeta que não Manuel Bandeira, o meu poeta brasileiro favorito. Nascido no Recife, passou boa parte da vida na capital federal, mas não perdeu as suas origens recifenses.

O poema que escolhi foi “Evocação do Recife” (hoje me permiti a obviedade), um tour de force emocional pela cidade publicado no incrível “Libertinagem” de 1930. Tenho certo carinho pelo poema, pois reconheço nele a “memória afetiva” da cidade, relação muito parecida com a que tenho com o Rio.

Sem mais, e Porque hoje é Sábado, Manuel Bandeira.

Uma pequena provocação, as duas fotos são de Olinda. Duas visões do Mosteiro de São Bento de Olinda tiradas por mim em Janeiro.

Evocação do Recife

Manuel Bandeira

Recife
Não a Veneza americana

Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais

Não o Recife dos Mascates

Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois

– Recife das revoluções libertárias

Mas o Recife sem história nem literatura

Recife sem mais nada

Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado

e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas

Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê

na ponta do nariz

Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras

mexericos namoros risadas

A gente brincava no meio da rua

Os meninos gritavam:

Coelho sai!

Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa

Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa

Terá morrido em botão…)

De repente

nos longos da noite

um sino

Uma pessoa grande dizia:

Fogo em Santo Antônio!

Outra contrariava: São José!

Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.

Os homens punham o chapéu saíam fumando

E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União…

Como eram lindos os montes das ruas da minha infância

Rua do Sol

(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade…

…onde se ia fumar escondido

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…

…onde se ia pescar escondido

Capiberibe

– Capiberibe

Lá longe o sertãozinho de Caxangá

Banheiros de palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho

Fiquei parado o coração batendo

Ela se riu

Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu

E nos pegões da ponte do trem de ferro

os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas

Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou

a passar a mão nos meus cabelos

Capiberibe

– Capiberibe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas

Com o xale vistoso de pano da Costa

E o vendedor de roletes de cana

O de amendoim

que se chamava midubim e não era torrado era cozido

Me lembro de todos os pregões:

Ovos frescos e baratos

Dez ovos por uma pataca

Foi há muito tempo…

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

Vinha da boca do povo na língua errada do povo

Língua certa do povo

Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil

Ao passo que nós

O que fazemos

É macaquear

A sintaxe lusíada

A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem

Terras que não sabia onde ficavam

Recife…

Rua da União…

A casa de meu avô…

Nunca pensei que ela acabasse!

Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife…

Meu avô morto.

Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro

como a casa de meu avô.


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